Review Metaphor: ReFantazio — O Espelho da Humanidade em um Mundo de Fantasia
Quando monstros são chamados de humanos e a verdadeira ameaça veste a máscara do poder, assim temos Metaphor: ReFantazio

Lançado mundialmente em 11 de outubro de 2024, Metaphor: ReFantazio chegou ao PlayStation 4, PlayStation 5, Xbox Series X|S e PC trazendo consigo a assinatura de uma das desenvolvedoras mais respeitadas no universo dos JRPGs, a japonesa ATLUS. Produzido pelo Studio Zero e publicado pela SEGA, o título reúne três nomes fundamentais da franquia Persona: Katsura Hashino na direção, Shigenori Soejima no design de personagens e Shoji Meguro na composição musical.
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O resultado dessa reunião é uma obra que, embora carregue elementos familiares aos admiradores de Persona e Shin Megami Tensei, procura estabelecer sua própria identidade, abandonando os ambientes escolares e urbanos contemporâneos para mergulhar em uma fantasia medieval repleta de conflitos políticos, tensões religiosas e desigualdades sociais.
Nossa aventura acontece no mundo fictício de Euchronia, onde a trama se passa, mais precisamente no Reino Unido de Euchronia, uma sociedade habitada por diferentes tribos humanoides, cada uma com características físicas, tradições e posições sociais próprias. Após o assassinato do monarca, uma inesperada disputa sucessória coloca o futuro do reino nas mãos da população, dando início a uma corrida pelo trono na qual popularidade, influência e manipulação caminham lado a lado.
Nesse cenário, assumimos o papel de um jovem pertencente à tribo Elda, uma das mais discriminadas daquele universo, cuja missão inicial de salvar um príncipe amaldiçoado acaba se entrelaçando com os destinos de todo o reino.
O que inicialmente parece uma jornada convencional de fantasia rapidamente se transforma em algo muito mais ambicioso. Por trás das batalhas, monstros e castelos, Metaphor apresenta uma reflexão sobre a própria humanidade, utilizando o fantástico como instrumento para discutir problemas bastante reais.
Aviso: Esta análise foi produzida durante minha jornada pelo jogo, quando já havia avançado consideravelmente na campanha, embora ainda estivesse longe de concluí-la. Portanto, as impressões apresentadas refletem minha experiência até esse ponto. O texto também contém revelações sobre personagens, Arquétipos e elementos da narrativa, incluindo referências que podem ultrapassar meu progresso.
A Fantasia Ganha Forma: A Arte de Euchronia
Quando o assunto é apresentação visual, Metaphor: ReFantazio demonstra que uma direção artística bem executada pode ser muito mais marcante do que a simples busca pelo realismo gráfico. Utilizando uma estética inspirada em animações japonesas, com técnicas de cel shading, o jogo constrói uma identidade visual que mistura personagens estilizados, ilustrações elaboradas e cenários tridimensionais que frequentemente parecem pinturas em movimento.
Euchronia é um verdadeiro espetáculo de cores e contrastes. Tons dourados, vermelhos intensos, azuis profundos e verdes vibrantes dividem espaço com ambientes acinzentados, construções envelhecidas e regiões que parecem carregar o peso de séculos de conflitos. Essa variedade cromática não serve apenas como decoração, contribuindo diretamente para a atmosfera de cada localidade.

A arquitetura merece atenção especial. Grandes fortalezas, muralhas imponentes, templos monumentais e edifícios religiosos dominam a paisagem, enquanto mercados, residências modestas e bairros empobrecidos evidenciam as profundas diferenças sociais daquele mundo. Em Grand Trad, por exemplo, a grandiosidade das construções contrasta com a realidade de parte de seus habitantes, transformando o próprio cenário em uma representação visual da desigualdade.
O mundo também apresenta estruturas que fogem completamente das convenções medievais, como o Gauntlet Runner, uma verdadeira fortaleza ambulante que mistura elementos mecânicos, arquitetura fantástica e uma boa dose de criatividade. Sua presença reforça a sensação de que estamos explorando um universo que possui regras próprias, sem depender exclusivamente das referências tradicionais do gênero.
A interface acompanha esse cuidado artístico. Menus, transições e telas de equipamentos apresentam composições dinâmicas, com tipografia estilizada, ilustrações e animações que transformam até mesmo a administração do inventário em uma experiência visualmente interessante.
Entretanto, a beleza de Euchronia convive com manifestações profundamente grotescas. E é justamente nessa contradição que encontramos uma das referências artísticas mais fascinantes de Metaphor.
O Jardim das Delícias Terrenas: Quando os Humanos São os Monstros
Entre as criaturas que ameaçam os habitantes de Euchronia, algumas das mais perturbadoras recebem uma denominação bastante peculiar: Humanos. Sim, humanos.
Em um mundo onde pessoas podem possuir chifres, asas, orelhas enormes ou características animalescas, os seres conhecidos como Humanos são criaturas deformadas, gigantescas e frequentemente compostas por combinações absurdas de corpos, objetos e estruturas impossíveis.
O aspecto mais interessante dessas aberrações está em sua relação com as obras do pintor neerlandês Hieronymus Bosch, especialmente o tríptico O Jardim das Delícias Terrenas, produzido entre o final do século XV e o início do XVI.

Bosch ficou conhecido por representar figuras grotescas e híbridas em composições carregadas de simbolismos religiosos e morais. Suas pinturas apresentam criaturas que parecem desafiar qualquer lógica anatômica, misturando elementos humanos, animais e objetos em cenários que frequentemente representam pecados, tentações e as consequências dos excessos da humanidade.
Metaphor transporta essa linguagem artística para os videogames com resultados impressionantes. O Homo Gorleo, um dos primeiros grandes Humanos enfrentados durante a aventura, apresenta uma composição visual relacionada a uma criatura do painel central de O Jardim das Delícias Terrenas. Já o Homo Avades possui semelhanças com figuras do painel direito, tradicionalmente associado ao inferno. Outras criaturas apresentam características que remetem ao imaginário de Bosch, ainda que nem todas possam ser relacionadas diretamente a uma pintura específica.
A escolha dessas referências não parece gratuita. Ao transformar figuras inspiradas em representações dos vícios e comportamentos humanos em monstros, Metaphor estabelece uma associação entre o grotesco e a própria natureza da humanidade. Existe uma ironia particularmente interessante nessa decisão artística. Enquanto as diferentes tribos de Euchronia são reconhecidas como pessoas, independentemente de suas características físicas, os monstros recebem justamente o nome de Humanos.
O significado dessa escolha se desenvolve ao longo da narrativa, mas desde os primeiros encontros fica evidente que o jogo pretende questionar o conceito de humanidade.
Afinal, o que realmente define um humano? Sua aparência, sua origem ou suas ações?
E, considerando os acontecimentos daquele mundo, será que os verdadeiros monstros são mesmo aqueles que encontramos nas masmorras?
O Combate: A Tradição dos JRPGs Encontra Novas Possibilidades
Em termos de jogabilidade, Metaphor: ReFantazio utiliza uma estrutura bastante conhecida pelos apreciadores dos JRPGs: combates por turnos, exploração de masmorras, evolução de personagens e gerenciamento de recursos. Entretanto, a ATLUS conseguiu introduzir elementos que tornam essa fórmula consideravelmente mais dinâmica.

Durante a exploração, podemos atacar inimigos diretamente no cenário, utilizando um sistema de combate em tempo real. Adversários significativamente mais fracos podem ser eliminados sem a necessidade de iniciar uma batalha tradicional, enquanto criaturas mais poderosas exigem confrontos por turnos.
A possibilidade de atordoar inimigos antes de iniciar uma batalha também acrescenta uma camada estratégica à exploração, recompensando abordagens cuidadosas e evitando confrontos desnecessariamente prolongados.
Quando entramos no combate tradicional, encontramos uma variação do sistema Press Turn, conhecido pelos jogadores de Shin Megami Tensei. Explorar fraquezas, utilizar habilidades adequadas e administrar corretamente os ícones de turno são elementos fundamentais para alcançar a vitória.
A formação da equipe também possui importância, permitindo posicionar personagens entre as fileiras dianteiras e traseiras, influenciando a eficiência de determinados ataques e a exposição aos golpes adversários.
O resultado é um combate bastante fluido, que preserva a essência estratégica dos JRPGs tradicionais sem transformar cada encontro em uma interrupção cansativa da exploração.
Mas, apesar de todas essas qualidades, o verdadeiro diferencial está em outro sistema.
Arquétipos: O Poder de Ser Quem Você Quiser
Se existe uma mecânica que merece destaque especial em Metaphor: ReFantazio, é o sistema de Arquétipos. Funcionando como uma evolução do tradicional sistema de classes dos RPGs, os Arquétipos permitem que os personagens assumam diferentes funções durante os combates. Guerreiro, Mago, Curandeiro, Cavaleiro, Mercador e Atirador são apenas algumas das possibilidades disponíveis, cada uma apresentando habilidades, características e progressões próprias. O grande mérito desse sistema está em sua liberdade.

Diferentemente de jogos que limitam seus personagens a classes previamente determinadas, Metaphor permite experimentar diferentes combinações, adaptando a equipe conforme os desafios encontrados. E essa liberdade se torna ainda mais interessante graças à herança de habilidades. Conforme desenvolvemos determinado Arquétipo, podemos aprender técnicas que posteriormente poderão ser utilizadas enquanto equipamos outra classe. Isso permite criar combinações extremamente versáteis, transformando a experimentação em parte fundamental da progressão.
Um personagem especializado em ataques físicos, por exemplo, pode incorporar habilidades mágicas ou de suporte aprendidas anteriormente, desde que respeitados os requisitos do sistema. Também existem as habilidades de Síntese, técnicas especiais que dependem da combinação de determinados Arquétipos entre os integrantes da equipe, acrescentando outra camada estratégica à composição do grupo.
Apesar dessa quantidade de possibilidades, o sistema consegue permanecer bastante intuitivo. A complexidade surge gradualmente, permitindo que o jogador compreenda suas ferramentas antes de experimentar construções mais elaboradas. Foi, sem dúvida, uma das mecânicas que mais gostei durante minha experiência. A comparação com Persona é inevitável, especialmente considerando a equipe responsável pelo desenvolvimento. Enquanto naquela franquia o protagonista costuma concentrar a maior liberdade para trocar Personas, em Metaphor todos os integrantes da equipe podem utilizar diferentes Arquétipos.
Embora eu ainda não tenha jogado Persona, essa diferença demonstra uma proposta interessante: transformar a liberdade de construção dos personagens em uma característica coletiva, e não exclusiva do protagonista.
Seguidores e Afinidades: Ninguém Conquista um Reino Sozinho
A progressão de Metaphor não acontece exclusivamente através das batalhas. Durante a jornada, conhecemos personagens que podem se tornar Seguidores, estabelecendo relações que se desenvolvem conforme dedicamos tempo às suas histórias e dificuldades pessoais. Esses vínculos desbloqueiam benefícios, aprimoram funcionalidades e permitem acessar novos Arquétipos ou evoluções de suas linhagens.
A mecânica apresenta semelhanças com os sistemas de Social Links e Confidants de Persona, mas encontra em Euchronia um contexto particularmente apropriado.

Em uma sociedade profundamente dividida por preconceitos entre tribos, desenvolver relações com pessoas de diferentes origens se torna muito mais do que uma atividade secundária. O protagonista amplia suas possibilidades justamente ao conhecer indivíduos, compreender seus problemas e estabelecer vínculos que ultrapassam as barreiras impostas pela sociedade.
Essa relação entre narrativa e mecânica é um dos pontos mais interessantes do jogo. O crescimento do personagem não depende apenas de derrotar monstros ou adquirir equipamentos melhores, mas também de aprender com aqueles que encontra durante a aventura. E, convenhamos, em um mundo onde praticamente todos parecem ter algum preconceito contra alguém, construir amizades verdadeiras já pode ser considerado uma grande conquista.
Personagens: Muito Além dos Estereótipos da Fantasia
Uma narrativa que pretende discutir temas sociais tão complexos depende diretamente da qualidade de seus personagens. Felizmente, Metaphor demonstra bastante competência nesse aspecto. Os integrantes da equipe possuem personalidades marcantes, histórias próprias e motivações que ajudam a compreender suas atitudes.
Strohl rapidamente se estabelece como um companheiro leal e determinado;
Hulkenberg combina seu rigoroso senso de honra com momentos de humor que contrastam com sua postura habitualmente séria.
Heismay acrescenta uma perspectiva particularmente interessante à equipe, apresentando conflitos relacionados à perda, ao preconceito e à maneira como sua tribo é tratada pela sociedade.
Gallica, a pequena fada que acompanha o protagonista, também merece reconhecimento. Sua presença constante poderia facilmente resultar em uma personagem inconveniente, mas a combinação de humor, personalidade e companheirismo faz com que ela se torne parte essencial da jornada.
Os personagens secundários também recebem atenção. Muitos Seguidores apresentam histórias que exploram conflitos familiares, desigualdades sociais, preconceitos e dificuldades pessoais, contribuindo para que Euchronia pareça um mundo verdadeiramente habitado. Naturalmente, alguns personagens conseguem se destacar mais do que outros, mas até o ponto em que avancei, todos os principais integrantes demonstraram possuir características suficientes para justificar sua presença na narrativa.
Política, Religião e Preconceito: Uma Fantasia Nem Tão Distante Assim
É impossível discutir a narrativa de Metaphor: ReFantazio sem abordar suas referências ao mundo real. Embora ambientado em um universo fantástico, o jogo apresenta uma sociedade marcada por problemas que conhecemos muito bem: racismo, desigualdade econômica, intolerância religiosa, disputas políticas e concentração de poder.
As diferentes tribos de Euchronia possuem posições sociais distintas, com determinados grupos desfrutando de privilégios enquanto outros enfrentam discriminação simplesmente por sua origem. A religião exerce enorme influência sobre a população e as instituições políticas, estabelecendo uma relação entre fé e poder que frequentemente ultrapassa os limites da espiritualidade. Entretanto, é durante a disputa pelo trono que essas questões ganham proporções ainda mais interessantes.

Os candidatos precisam conquistar o apoio popular, construir uma imagem pública e convencer a população de que possuem as melhores condições para governar. Nesse processo, discursos, promessas e demonstrações de poder passam a exercer influência direta sobre a opinião pública. O que inicialmente parece uma eleição improvável dentro de um cenário medieval rapidamente se transforma em uma representação bastante familiar das disputas políticas contemporâneas. E é justamente aqui que encontramos, na minha opinião, uma das reflexões mais importantes de toda a experiência.
A Verdade Pertence a Quem Controla a Informação?
Entre todos os temas apresentados por Metaphor, aquele que mais chamou minha atenção foi a maneira como os poderosos utilizam a informação para manipular a população. Em Euchronia, possuir autoridade não significa apenas controlar exércitos, recursos ou instituições. Significa também influenciar aquilo que as pessoas acreditam ser verdade.
A maneira como acontecimentos são apresentados, omitidos ou reinterpretados pode determinar a opinião pública, fortalecer determinados grupos e transformar indivíduos em heróis ou inimigos. O jogo demonstra como instituições políticas e religiosas podem utilizar sua influência para direcionar narrativas, especialmente quando encontram uma população insegura ou dividida. E a relação com o mundo real é evidente.
A informação sempre foi uma ferramenta de poder, mas sua utilização para influenciar comportamentos e opiniões se tornou ainda mais perceptível em uma sociedade marcada pela velocidade dos meios de comunicação e pela circulação constante de notícias, interpretações e desinformação. Em Metaphor, o medo também desempenha um papel importante nesse processo. Uma população ameaçada pode se tornar mais receptiva a discursos autoritários ou promessas simplistas, especialmente quando determinados grupos são apresentados como responsáveis pelos problemas coletivos.
O preconceito, nesse contexto, deixa de ser apenas uma característica cultural e passa a funcionar como instrumento político. É uma abordagem particularmente interessante porque não depende de grandes explicações para estabelecer sua relação com a realidade. Basta observar os comportamentos apresentados pelos personagens e instituições para reconhecer situações semelhantes às encontradas fora dos videogames. A fantasia, portanto, funciona como uma ferramenta para discutir nossa própria sociedade, e talvez essa seja uma das maiores qualidades narrativas de Metaphor: ReFantazio.
A Angústia do Calendário: Quando o Tempo Também É um Recurso
Assim como acontece em outros títulos da ATLUS, Metaphor utiliza um sistema de calendário que influencia diretamente a progressão da aventura. Viajar, explorar masmorras, desenvolver Virtudes Reais e fortalecer relacionamentos com Seguidores são atividades que consomem tempo, exigindo planejamento constante. Nem sempre é possível realizar tudo aquilo que desejamos, especialmente quando existem prazos relacionados aos acontecimentos da história principal.

Essa estrutura transforma a administração do tempo em parte fundamental da experiência. O mesmo acontece com os recursos utilizados durante as batalhas, principalmente o MP. Dependendo da composição da equipe e das habilidades utilizadas, uma exploração prolongada pode exigir decisões difíceis sobre continuar avançando ou retornar para descansar. Algumas masmorras também apresentam estruturas semelhantes, e determinados confrontos podem se tornar repetitivos.
Entretanto, nenhuma dessas características chegou a me incomodar significativamente. Com o avanço da jornada, fui me adaptando às exigências do sistema, aprendendo a administrar melhor os recursos e a organizar as atividades disponíveis. É compreensível que essas limitações não agradem a todos os jogadores, principalmente aqueles que preferem explorar livremente sem precisar considerar prazos ou recursos. No meu caso, porém, elas acabaram contribuindo para a experiência, transformando o planejamento em mais uma ferramenta estratégica.
A Música de Euchronia: Uma Trilha Sonora Quase Palpável
A trilha sonora de Metaphor: ReFantazio, composta por Shoji Meguro, merece um destaque especial.
E não seria exagero afirmar que estamos diante de um dos elementos mais impressionantes de toda a produção. Utilizando composições orquestrais, percussões marcantes e vocalizações que remetem a cânticos religiosos e rituais, Meguro construiu uma identidade sonora que combina perfeitamente com o universo apresentado. As músicas conseguem transmitir sentimentos quase palpáveis, acompanhando momentos de tensão, descobertas e confrontos com uma intensidade que frequentemente transforma a atmosfera das cenas.
A utilização de vozes também contribui para essa identidade. A trilha de combate, por exemplo, utiliza uma interpretação vocal vigorosa e bastante peculiar, que se tornou uma das características mais reconhecíveis do jogo. E aqui entra um detalhe pessoal: justamente essa música de combate foi a que mais me agradou.
Em um JRPG, determinadas faixas são reproduzidas tantas vezes que acabam perdendo parte de seu impacto. Afinal, depois de enfrentar dezenas de inimigos, não seria estranho que uma mesma composição começasse a se tornar cansativa. Mas isso simplesmente não aconteceu.
Mesmo depois de ouvi-la repetidamente, continuo gostando da música, algo que considero um enorme mérito para uma trilha utilizada com tanta frequência. A sonoridade de Metaphor não serve apenas como acompanhamento. Ela participa ativamente da construção daquele mundo, reforçando sua identidade cultural, religiosa e fantástica.
Vozes e Localização: A Importância de Uma Boa Interpretação
Outro aspecto que merece reconhecimento é o trabalho realizado com as vozes dos personagens. Durante minha experiência, dei preferência ao áudio japonês, que apresenta interpretações excelentes e combina perfeitamente com a personalidade e o estilo visual de Metaphor. Os atores conseguem transmitir emoção, tensão e humor de maneira convincente, contribuindo para a construção dos personagens e para a intensidade dos acontecimentos.
A dublagem inglesa, embora competente, não me causou a mesma impressão. Algumas interpretações me pareceram menos naturais quando comparadas às japonesas, motivo pelo qual preferi continuar utilizando o áudio original. Naturalmente, trata-se de uma preferência pessoal, e não de um problema técnico da versão inglesa.
Já a localização para o português brasileiro merece elogios praticamente irrestritos.
A tradução está impecável na experiência que tive até aqui, apresentando diálogos naturais, descrições compreensíveis e uma adaptação bastante competente dos termos utilizados pelo jogo.
Considerando a enorme quantidade de textos presentes em Metaphor, esse cuidado é especialmente importante. Estamos falando de um JRPG que utiliza diálogos, documentos e descrições para apresentar não apenas suas mecânicas, mas também questões políticas, religiosas e sociais relativamente complexas. Uma localização mal executada poderia comprometer a compreensão de diversos elementos da narrativa. Felizmente, não foi o caso.
O Que a Comunidade Está Dizendo?
A recepção de Metaphor: ReFantazio entre os jogadores é amplamente positiva, embora isso não signifique ausência de críticas. Nas avaliações publicadas na Steam, os principais elogios estão relacionados à direção artística, à trilha sonora, ao sistema de Arquétipos e à construção dos personagens. A combinação entre combates em tempo real durante a exploração e batalhas tradicionais por turnos também aparece como um dos pontos mais valorizados, principalmente pela fluidez que acrescenta à experiência.
Entretanto, nem todos os jogadores ficaram igualmente satisfeitos com determinadas escolhas. Entre as críticas encontradas estão a repetição de algumas masmorras, a necessidade de administrar constantemente o MP e o tempo exigido para desenvolver determinados Arquétipos. Nas discussões do Reddit, também encontramos opiniões divididas sobre a progressão das classes. Enquanto alguns jogadores elogiam a liberdade de personalização, outros consideram que certos requisitos acabam direcionando excessivamente a evolução dos personagens.
A narrativa também provoca discussões. Existem jogadores que consideram os temas políticos e sociais um dos maiores méritos da obra, enquanto outros acreditam que determinadas questões poderiam receber maior aprofundamento. Essas opiniões demonstram como as mesmas características podem provocar experiências bastante diferentes.
No meu caso, as limitações relacionadas ao calendário, aos recursos e à repetição de determinadas estruturas não chegaram a comprometer a diversão. Pelo contrário, consegui me adaptar naturalmente a essas exigências, mantendo meu interesse tanto pelas batalhas quanto pela exploração e pelo desenvolvimento dos personagens. Quanto às críticas relacionadas ao encerramento da história, prefiro reservar um julgamento definitivo para quando concluir a campanha.
Afinal, por mais positiva que seja minha experiência até agora, ainda existem acontecimentos importantes que preciso conhecer.
O Veredito do Fliperama de Verdade
Metaphor: ReFantazio representa uma demonstração impressionante de como um JRPG tradicional pode apresentar novas possibilidades sem abandonar as características que definem o gênero. Seu sistema de combate combina estratégia e fluidez, enquanto os Arquétipos oferecem liberdade suficiente para incentivar diferentes composições de equipe e estilos de jogo.
A direção artística transforma Euchronia em um mundo visualmente memorável, utilizando cores, construções e referências culturais para estabelecer uma identidade própria. A influência das pinturas de Hieronymus Bosch sobre os Humanos é um excelente exemplo de como elementos artísticos podem contribuir diretamente para a construção de um universo fantástico. Os personagens são bem desenvolvidos, os relacionamentos possuem importância narrativa e mecânica, e a trilha sonora de Shoji Meguro consegue transmitir emoções com uma intensidade raramente encontrada.
As excelentes interpretações japonesas e a localização brasileira completam uma experiência audiovisual extremamente competente. Entretanto, o maior mérito de Metaphor talvez esteja em sua narrativa. Ao abordar preconceito, desigualdade, religião, disputas políticas e manipulação da informação, o jogo utiliza a fantasia como uma maneira de representar problemas profundamente enraizados em nossa própria sociedade.
E essa abordagem se torna ainda mais interessante quando percebemos que, em um mundo habitado por diferentes tribos humanoides, os monstros recebem justamente o nome de Humanos.
É uma escolha que sintetiza muito bem as reflexões propostas pela obra. Embora existam aspectos que possam incomodar determinados jogadores, como a repetição de algumas masmorras e as limitações impostas pelo calendário, nenhum deles comprometeu minha experiência até o momento.
Ainda não concluí a campanha e sei que existem muitas revelações, personagens e desafios pela frente. Entretanto, aquilo que experimentei até aqui foi suficiente para considerar Metaphor: ReFantazio uma das experiências mais marcantes que tive com o gênero. A ATLUS conseguiu construir um mundo fantástico que não se limita a oferecer uma fuga da realidade. Pelo contrário, utiliza seus elementos mais extraordinários para nos fazer refletir sobre questões bastante próximas de nós.
No fim das contas, talvez a verdadeira fantasia não esteja nas criaturas impossíveis, nos poderes dos Arquétipos ou nas construções monumentais de Euchronia, mas na esperança de que pessoas tão diferentes possam superar seus preconceitos e construir um futuro melhor. E essa é uma mensagem que merece ser ouvida. Por isso Metaphor: ReFanzio...

Autor: Mestre Marcus Dartan (via FliperamaDV)
Plataforma Analisada: Playstation 5 (Jogo fornecido pelo FliperamaDV)
Gênero: JRPG / RPG de turnos
Desenvolvedora: ATLUS (Studio Zero)
Publicadora: Sega
Lançamento: 11 de outubro de 2024
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