Review Coyote vs. ACME (Sem Spolier)
Em Coyete vs Acme, o Coyote nunca foi um fracassado! Ele só escolheu muito mal seus fornecedores
Misturando comédia jurídica, investigação e o caos dos Looney Tunes, o filme entrega uma ótima homenagem aos personagens clássicos, ainda que dependa bastante da nostalgia do público.
Esta review não contém spoilers.
Poucos personagens representam tão bem a persistência quanto o Coiote. Ele já foi esmagado, explodido, arremessado de penhascos e vítima de praticamente todas as leis da física — especialmente daquelas que só entram em vigor depois que alguém olha para baixo. Mesmo assim, ele nunca desistiu de capturar o Papa-Léguas.
Em Coyote vs. Acme, essa determinação encontra um novo caminho: se os produtos da ACME falharam incontáveis vezes, talvez o problema não esteja no consumidor, mas no fabricante. É assim que o personagem troca temporariamente as armadilhas pelo tribunal e inicia uma batalha jurídica contra a empresa que forneceu os equipamentos responsáveis por boa parte de suas desgraças.

Dirigido por Dave Green e estrelado por Will Forte, John Cena e Lana Condor, o filme combina atores reais com personagens animados em uma comédia que entende muito bem o absurdo de sua própria premissa. O mais curioso é que aquilo que poderia funcionar apenas como uma piada prolongada acaba sustentando uma história divertida, inventiva e até mais sensível do que se poderia esperar.
O filme também carrega uma ironia impossível de ignorar. Depois de concluído, ele chegou a ser engavetado pela Warner Bros. Discovery como parte de uma decisão financeira, antes de ser adquirido para lançamento pela Ketchup Entertainment. Em outras palavras, uma produção sobre um personagem enfrentando judicialmente uma grande corporação quase desapareceu por causa de uma decisão tomada por outra grande corporação. Nem a ACME teria planejado algo tão perfeitamente absurdo.
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Uma comédia jurídica com dinamite no bolso
Apesar do que os trailers e a presença dos Looney Tunes podem sugerir, Coyote vs. Acme não é exatamente uma grande aventura. Existem momentos de ação, investigação e perseguição, mas a maior parte da história é construída ao redor do processo contra a ACME.
Segundo o Wikipedia: Looney Tunes é uma série de curta-metragens de animação norte-americana do tipo humor que mistura sátira social e absurdo,[1] produzida de 1930 a 1969 e, distribuída pela Warner Bros. Animation durante a chamada "era de Ouro da animação estadunidense", ao lado de sua série-irmã Merrie Melodies. A série introduziu os personagens Pernalonga, Patolino, Gaguinho, Frajola, Piu-Piu, Papa-Léguas, Wile E. Coyote e, muitos outros.
Esse é um dos elementos mais interessantes do filme, embora também possa afastar parte do público. Quem entrar na sala esperando uma sequência constante de explosões, quedas e perseguições talvez estranhe o espaço dedicado a reuniões, estratégias jurídicas e discussões relacionadas ao processo.
O começo também demora um pouco para engrenar. As primeiras movimentações dos advogados parecem caminhar para uma resolução pouco empolgante, como se a premissa não tivesse força suficiente para sustentar um longa-metragem. Felizmente, essa impressão passa. Conforme o conflito cresce, a trama jurídica se torna mais envolvente e revela ser uma escolha bastante acertada.

Particularmente, gostei dessa abordagem. O tribunal não serve apenas como cenário para colocar o Coiote usando gravata. A disputa jurídica permite que o filme explore sua relação com a ACME e transforme décadas de fracassos cômicos em algo que também diz respeito a responsabilidade, perseverança e exploração corporativa — sem abandonar bigornas, foguetes e decisões completamente questionáveis.
O Coiote sempre foi o herói da própria história
O maior acerto do filme é o próprio Coiote.
Durante décadas, acompanhamos o personagem fracassar em seu objetivo, mas Coyote vs. Acme nos lembra de que ele nunca foi incompetente. Pelo contrário: trata-se de um inventor extremamente engenhoso, criativo e capaz de elaborar planos complexos utilizando qualquer coisa que encontre pelo caminho.
O problema é que seus produtos costumam carregar o selo da ACME, uma marca cuja política de controle de qualidade aparentemente consiste em esperar a explosão e analisar o tamanho da cratera.
O filme preserva a essência silenciosa do personagem e encontra maneiras de demonstrar suas emoções sem descaracterizá-lo. Sua relação com os humanos é excelente, especialmente porque ele não é tratado apenas como uma criatura digital acrescentada às cenas. Há peso, contato e uma verdadeira sensação de convivência entre os atores e o personagem animado.

Essa integração é um dos maiores triunfos técnicos da produção. Os atores olham, reagem e se movimentam como se realmente estivessem dividindo o espaço com aquelas figuras. As atuações ajudam a vender a ilusão, e raramente existe aquela impressão incômoda de que alguém está conversando com um ponto marcado diante de uma tela verde.
O resultado é uma relação surpreendentemente convincente. O Coiote continua sendo resiliente, inventivo e absurdamente determinado, mas agora encontra pessoas capazes de enxergar algo além de suas derrotas.
O Papa-Léguas não desperdiça um único “bip-bip”
As participações do Papa-Léguas são impecáveis.
O filme sabe exatamente quanto utilizar o personagem e entende que sua presença funciona melhor quando permanece ligada ao ritmo dos desenhos clássicos. Cada aparição recupera imediatamente a dinâmica que tornou a dupla tão conhecida, sem roubar do Coiote o protagonismo de sua própria história.
O mesmo cuidado aparece em boa parte do humor. Além das piadas mais evidentes, há pequenas ações acontecendo nas bordas do enquadramento e até fora do centro da cena. Personagens continuam reagindo enquanto o diálogo principal acontece, objetos se comportam de maneira absurda e algumas gags quase passam despercebidas.
Essa quantidade de detalhes torna o filme ainda mais divertido e recompensa quem permanece atento. É um tipo de comédia muito associado aos Looney Tunes: enquanto você olha para a piada principal, outra já está sendo preparada em algum canto da tela.
A trilha sonora também sabe utilizar os temas clássicos da franquia. As músicas dos Looney Tunes não aparecem apenas como lembranças nostálgicas, mas como parte do ritmo das cenas. Elas acompanham movimentos, antecipam confusões e ajudam a recuperar aquela sensação musical tão característica dos desenhos.
Um mundo de desenhos que, às vezes, parece vazio
Curiosamente, uma das melhores ideias do filme também origina sua principal fragilidade. O universo de Coyote vs. Acme é apresentado como um mundo naturalmente habitado por humanos e personagens animados. Ninguém parece considerar estranha a presença de um pássaro supersônico, um coelho falante ou um coiote comprando explosivos pelo correio.
Entretanto, em diversos momentos, senti falta de personagens animados compondo o fundo das cenas. Eles aparecem quando possuem alguma função narrativa ou quando são o foco de uma piada, mas desaparecem de boa parte dos ambientes cotidianos. Isso cria a sensação de que os desenhos só existem quando o roteiro precisa deles.

Para um mundo que deseja apresentar essa convivência como algo normal, faltou povoá-lo melhor. Pequenos personagens atravessando uma rua, trabalhando em estabelecimentos ou simplesmente participando dos espaços públicos tornariam o universo mais vivo e convincente. Em algumas cenas, parece que estamos em um mundo compartilhado por humanos e desenhos; em outras, parece que os Looney Tunes acabaram de ser liberados de um camarim.
O filme menciona diversos personagens que nunca aparecem em tela, reforçando a ideia de que todos fazem parte daquele universo. Essas referências agradam aos fãs, mas também tornam mais perceptível a ausência deles no cenário.
Nostalgia que funciona melhor para quem fez a lição de casa
Embora seja divertido por conta própria, Coyote vs. Acme claramente funciona melhor para quem possui algum conhecimento prévio dos Looney Tunes. Muitas piadas dependem da familiaridade com os personagens, seus comportamentos e suas antigas rivalidades. Quem já assistiu aos desenhos entende imediatamente por que uma música, um objeto ou uma simples expressão pode ser engraçada. Já o público mais novo talvez compreenda a situação, mas não necessariamente tudo o que existe por trás dela.
Isso não transforma o filme em uma experiência inacessível, mas impede que ele seja uma verdadeira porta de entrada para esse universo. A produção conversa primeiro com quem já conhece aqueles personagens e só depois tenta conquistar quem chegou agora.
Alguns deles recebem camadas surpreendentes. Vovó, Piu-Piu, Frangolino e o próprio Pernalonga ganham momentos que expandem um pouco suas personalidades sem apagar aquilo que os tornou conhecidos. É muito bom reencontrá-los e perceber que o filme não os utiliza apenas como imagens nostálgicas.
Ainda assim, nem todas as participações se encaixam naturalmente. A Vovó, o Hortelino e, inicialmente, até o Pernalonga parecem um pouco deslocados dentro da história. Alguns encontram melhor seu espaço conforme o filme avança; outros deixam a impressão de terem sido incluídos principalmente porque alguém precisava completar a chamada dos Looney Tunes.
Uma ótima dublagem com uma confusão digna da ACME
Assisti ao filme dublado, e o trabalho brasileiro é muito bom. As vozes combinam com o tom da produção, as piadas foram bem adaptadas e a interpretação preserva a energia dos personagens clássicos.
Na sessão a que assisti, porém, ocorreu um problema bastante curioso: o Hortelino Troca-Letras apareceu com a voz e a personalidade associadas ao Eufrazino Puxa-Briga. A imagem era do Hortelino, mas tudo o que se ouvia e percebia pertencia ao Eufrazino. Considerando o histórico de produtos defeituosos da empresa, talvez a ACME também tenha fornecido as etiquetas usadas durante a gravação.
A confusão chama atenção justamente porque esses personagens possuem identidades muito diferentes. Não é apenas uma troca de voz: muda o comportamento, a maneira de falar e o tipo de humor da cena. Felizmente, o problema não representa a qualidade geral da versão brasileira.
Posteriormente, páginas especializadas em dublagem informaram que a falha foi corrigida nas cópias exibidas depois do lançamento. Portanto, essa observação se refere especificamente à versão disponível na sessão em que assisti ao filme.
Ainda sobre Sonorização, o que podemos falar sobre as músicas do filme? Acho que, assim como o Coyote, vamos apresentar a plaquinha e deixar você decidir...
Veredito da Equipe FliperamaDV
Coyote vs. Acme é um ótimo filme e, acima de tudo, uma experiência muito divertida. A escolha de construir boa parte da história como uma comédia jurídica pode frustrar quem esperava uma aventura constante, mas também é justamente aquilo que diferencia a produção de outras tentativas de atualizar personagens clássicos. Em vez de simplesmente jogar os Looney Tunes em uma sequência de referências, o filme encontra uma premissa capaz de explorar a essência do Coiote.
A integração entre animação e atores reais é excelente, as atuações passam credibilidade e o humor aproveita tanto as grandes gags quanto as pequenas piadas escondidas nas cenas. O Papa-Léguas é utilizado com precisão, a trilha recupera a identidade musical dos desenhos e vários personagens recebem mais personalidade do que suas breves participações poderiam sugerir.
O mundo poderia ser mais povoado, alguns rostos clássicos parecem deslocados e a dependência de conhecimento prévio limita um pouco o alcance da experiência. Ainda assim, esses problemas não apagam seus muitos acertos. Depois de passar décadas caindo em armadilhas, talvez o Coiote finalmente tenha percebido que nunca lhe faltaram inteligência, criatividade ou determinação. Faltava apenas guardar as notas fiscais. Por isso...

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